22 de novembro de 2010

"Me desperdiço, me dôo, me comovo, me arrebento de existir."

O título é do Carpinejar. o sentimento é todo meu. rs

Gente... minha casa fica cada dia mais linda. E quando os amigos a povoam, nem se fala. Quem chega faz fotos de cada cantinho e eu me inflo toda, of course.

Vou postar umas coisinhas depois, como quem não quer nada... rs

Agora dá um saque nesse texto, que beleza.

O Amor e Suas Letras

O que é o amor? A filosofia o define como uma das paixões da alma ou do ser, lado a lado com o ódio e a ignorância. Mas o amor sequer existiria, se dele não falássemos, argumenta o literato (La Rochefoucauld). E o que diz a psicanálise? “A transferência é o amor”, resume Lacan, com algumas décadas de distância, uma das descobertas primeiras da psicanálise: o amor de transferência. Este, segundo Freud, em nada difere do amor que ao mesmo tempo une e separa os seres falantes onde quer que estejam.

Eros, um dos nomes do amor na mitologia grega, passa a fazer parte do vocabulário psicanalítico como sinônimo da pulsão de vida, cuja tarefa é “amansar a pulsão de destruição”, desordenar o seu caminho silencioso em direção à morte. Para Freud, o amálgama vida/morte e seus efeitos de amor/ódio subjazem a todos os fenômenos que se dizem humanos.

Não existissem os impasses do amor, não existiria a psicanálise. Freud ensina que o amor ou é narcísico ou é edipiano. O primeiro não é senão amor pela própria imagem, lugar no Outro onde me vejo amável. Em contrapartida, o amor edipiano é necessariamente um amor a três. Nele, o terceiro excluído é condição sine qua non. E o ser amado, inevitavelmente um substituto. Fala-se, por isso, de erro de pessoa, pois, no fim do baile, ao apagar das luzes e ao cair das máscaras… não era ele, tampouco era ela.

Freud denomina Mannlich Typus, amor do tipo masculino, aquele em que ocorrem a idealização do objeto e a sublimação da pulsão. Lacan o aproxima das manifestações de amor que tem lugar na França, no decurso da Idade Média: o fin’amors e o amor cortês. Amor de cancioneiros e poetas, ele acaba por criar a Dama cuja perfeição a torna inacessível. É a Beatriz de Dante cujo bater de pálpebras moveria o mundo, nos versos daquele que a criou.

Freud enumera ainda as antíteses do ato de amar: a indiferença, o ódio, mas também a posição passiva daquele que demanda apenas ser amado. No Seminário, livro 8, Lacan nomeia a transferência de “milagre do amor”. Ao cotejar o texto freudiano com O Banquete de Platão, ele assim conclui: o milagre é a transformação de érômenos em érastès, isto é, a passagem da posição de amado e desejável à posição de amante e desejante.

Como o amor é propício aos aforismos, Lacan propõe alguns em seu seminário sobre a angústia. Ele aí afirma, por exemplo, que “somente o amor permite ao gozo condescender ao desejo.” (Lacan 1963/2005: 197). O amor pode vir a se alojar na hiância que separa o desejo e o gozo, tornando então possível gozar e desejar com o mesmo objeto. Sim, porque Lacan também descobre nas mulheres o mesmo desdobramento da vida amorosa que Freud descobrira nos homens: de um lado, o parceiro do desejo, do outro, o parceiro do amor. A pequena diferença está no fato de que, enquanto os homens amam de forma fetichista, as mulheres o fazem erotomaniacamente. Elas amam no homem sua relação com o saber, ou seja, o inconsciente. Um homem, porém, ama numa mulher o que lhe falta, e por isso fantasia um masoquismo feminino. Num fim da análise, há então alguma diferença.

Mas há também os casos em que falamos de um possível curto circuito terapêutico da análise por meio do amor. Pois o lugar do analista não é propriamente o do amor, e sim o de um desejo advertido. Advertido, inclusive, das armadilhas do amor. Sua aposta, com Lacan é a produção de um amor inédito, sem cegueira ou servidão.

“O amor demanda o amor. Ele não deixa de demandá-lo. Ele o demanda…mais…ainda.” Eis como Lacan dá a partida ao Seminário, livro 20. Se já observara que o discurso analítico é o que sempre emerge no giro de um a outro discurso, ele agora o confirma, asseverando que “o amor é signo de que mudamos de discurso.” No discurso analítico só se fala de amor. Fala-se de seus obstáculos, fracassos e rateios. Eventualmente, de seu êxito. É que o amor pode fazer suplência à relação sexual que não existe. A proporção sexual que não se inscreve inconscientemente, conseqüentemente não se escreve. Em contrapartida, “a única coisa séria a ser feita é a letra/carta de amor”. (Lacan 1972/1985)

Será que, então, a letra de amor faz série? O amor se escreve em cartas, poesias, romances e canções. Quem nunca recebeu ou enviou um bilhete de amor? Um pequeno gesto? Um sinal de amor? Vinícius, nosso poetinha – como o chamávamos carinhosamente – não desconheceu em seus versos que existe o fim do amor, o que não o impediu de desejá-lo “eterno, enquanto dure”. Tom versava e dedilhava incansavelmente o quanto “é impossível ser feliz sozinho”. Paulinho, viola sob o braço, canta que “só um novo amor pode apagar” as marcas de desencanto de outro amor.

Saberemos nós, psicanalistas, tomar o amor ao pé da letra? Desfazer os nós da transferência? Conduzir analisandos da demanda de amor à pulsão? Saberemos trabalhar com a letra?

(Vera Pollo - autora de - entre demais publicações - "Mulheres Histéricas" (Ed. Contra Capa) e professora da Universidade Veiga de Almeida.

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