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16 de março de 2011

"A esperança é meu pecado maior"



Frase da Lispector que caiu como luva no meu hoje, de olhos maiores, de visão embassada, de trsiteza atravessada na garganta, de vontade de chorar quando não devo. 

Quero tanto mudar, sinto um impulso maldito. Mas lá no fundo, fica tão dificil acertar comigo o fim dos meus principios mais intrinsecos: respeito, solidariedade e despreendimento com o próximo. Próximos estes que já aprenderam o que insiste em desviar de mim: o egoísmo seco, que não se importa em esmagar o outro em detrimento de si proprio. 

Agora é melhor ficar quietinha, porque inferno astral parece muito com tpm. Tem sintomas parecidos, tem sensibilidade exagerada... Mas enquanto os anos passam e o tempo deixa suas marcas em minha vida, fica inevitável não perceber uma coisa que até já me disseram antes, mas só agora a ficha cai de uma vez: Quanto mais envelhecemos, mais emotivos nós ficamos... E para uma ariana em ascendente em câncer, me parece, Isa Lorena, há muitas coisas a aprender... 



15 de março de 2011

O meu amor...

Ele tem um sotaque dual, uma fonoaudiologia muito própria, algo entre a Bahia e o Rio, com palavras muito suas, com puxadas naturais. Tem manias de velho: coça a cabeça e fala sozinho, alma antiga desse mundo que me escolheu pra guardiã, sua mentora e parteira, mãe de muitos sins e muitos nãos.

Ele senta na latrina com uma pilha de revistas e conhece os seus cheiros e sua geografia, como toda gente sábia, que não acanha em mergulhar. Tem espírito de artista, olhar profundo, calma cativa. E respeita a si e ao mundo, cada coisa em seu lugar.

Ele come devagar, na sua manha de menino e reclama pra tomar banho, mas demora pra sair tanto quanto para entrar. Tem suas teimas, tem seus vícios, mas aprendeu a caotizar tudo e do alto da colina, aprender a repensar. Se reinventa, se descobre, gosta de fogueira e vela; filho de bruxa, neto de nobres, pensador de texto e rascunho, vive sempre a matutar.

Ele se chama Juanito. O Don Juan, o meu carlito, com suas gaiatices (pai)téticas, de gargalhadas pelo ar. Ele é feliz e me apaixono, dia a dia, plano a plano, grafias nossas, amor eterno, do mais profundo e dialético, que no mundo há de se inventar.  

14 de março de 2011

A
palavra
sai
repetida

Sufocada
pelo
engasgo
que
assola

Tudo
esmaece
à
solidão
pulsante

Que
tomada
louca
já
aflora

3 de março de 2011

Comunicação é tudo mesmo, minha gente!

            A grande lacuna entre pais e filhos está na comunicação, no diálogo, tão necessário para manter saudáveis as relações, qualquer que sejam elas. A maior parte dos pais comete o grande equívoco de acreditar que o diálogo só precisa acontecer no ápice dos problemas, encontrando, na maior parte das vezes, apenas o silêncio de seus filhos. Falo isso de um patamar de experiência própria, tendo sido eu, hoje com 29 anos e mãe de um mocinho de nove, uma adolescente problemática e rebelde, que apesar da educação excelente recebida, viveu por muitos anos à sombra dessa lacuna.

            Hoje, no plano de educação estabelecido para o meu filho, o diálogo está na base do todo, no centro das atenções. Conversamos sobre tudo, desde as travessuras na escola, os imensos detalhes do cotidiano, até as questões mais complexas, como a relação humano-corpo, humano-humano. Além de aprender muito com ele, me sinto muito mais pronta para resolver os problemas quando eles aparecem, porque problemáticas não surgem do acaso: percorrem caminhos suntuosos, até desabar no mar da dúvida que atormenta e causa angústia.

            Não acredito na irreversibilidade das coisas, ou melhor, procuro não acreditar. Assim, me assumo uma otimista quase ingênua da humanidade. E grande parte desse acreditar, sem dúvidas, vem do fato de ser mãe. Porque sempre que penso em desistir – e não são poucas as vezes que esse pensamento chega sorrateiro – é ele quem vislumbro à frente. Portanto, resolvi escrever sobre isso, porque todos somos filhos e alguns de nós, pais. E não me venham com o velho papo de que “se conselho fosse bom seria vendido”, porque essa desculpa estritamente egoísta e capitalista nunca me foi muito digesta e se queremos de fato um mundo melhor para nós e para aqueles que nos precederá, precisamos sim, botar pra fora o que sabemos sobre o mundo, para somadas as experiências, buscarmos as melhores soluções, seja qual for o contexto.

            Sendo assim, convoco todos a pensar sobre isso. Um bom papo em casa diminui consideravelmente a necessidade de uma busca posterior aos profissionais especializados para isso. Longe de mim acabar com o ganha pão dos psicólogos, analistas e afins; quero antes alertar é para a não-necessidade para tantas buscas por terapias, muitas vezes solicitadas por aqueles que não têm a quem recorrer perto de si. São alguns e não todos os casos, obviamente. Mas são muitos. Atualmente, podemos perceber, se observarmos um pouquinho, que paralelo ao boom tecnológico que vivemos, onde estamos cada vez mais inseridos em novas redes de sociabilidade, isolamo-nos em mundos construídos para nossos egos e permanecemos à espreita do todo. Ora, será que toda essa solidão pulsante não tem um precedente? E será tão difícil assim compreender que esse precedente pode estar lá atrás, nos confins de nossa infância e/ou juventude?

            Crianças não nascem sabendo se comunicar. Isso soa óbvio, mas não o é, na prática. Nós, pais sobretudo, precisamos aprender a aprender. E isso não é lá muito fácil… Porque enquanto enfrentamos o mundo apenas como filhos, vivemos nossas problemáticas nesse grau hereditário, pois somos “as vítimas” enquanto os pais são “os culpados”. Invertendo o jogo, muitas máquinas quase pifam.  Mas a observação constante do comportamento e a leitura possível de fazer das atitudes e contrários, nos levam a um conhecimento sensacional sobre eles e sobre nós mesmos. Quando uma criança mente, por exemplo, uma coisa tão típica na primeira infância, o que podemos fazer além de repreender? Conversamos. Elas não entendem, muitas vezes, suas próprias atitudes e nós somos os mediadores dessa história, pois estamos num processo constante de plantação e colheita com relação a eles e ao mundo. Precisamos ir e voltar com informações que parecem pequenas num primeiro instante, mas que serão extremamente pertinentes quando eles passarem a ver o mundo sem ter a nós como filtros. E engana-se, como eu me enganei tantas vezes, que esse olhar solitário deles para o mundo chega numa idade mais avançada apenas; ela acontece desde sempre, e se potencializa muito cedo. E a gente que tenha jogo de cintura para manter o equilíbrio em todas as negociações!

            E esse é o gostoso da empreitada. Se vc, mamãe e papai, estabelecem como hábito o diálogo, ele será sempre o movimento precursor de todas as situações futuras, mesmo na inevitável ‘aborrecência’, que graças a Tupã, passamos todos nós, pois ela é essencial para os binóculos que seremos no futuro. Sejamos mais atentos aos nossos rebentos, nós, seres inverídicos do século XXI. Vamos acabar de uma vez com esse escasso paradigma que insiste em repercutir, onde as crianças não têm vontades. Elas têm e muitas! E nós, temos uma compreensão melhor sobre os limites cabíveis, as vias de organização dessas vontades; Temos a experiência para indicar os caminhos, a paciência para escutar as repetidas versões, o carinho para viabilizarmos os sonhos, segurando os pezinhos lá no chão. Sem maiores divagações espiritualistas, é bom acreditar que fomos escolhidos por elas, afinal, para guiar melhor os seus caminhos. Portanto, vamos fazer isso com a verdade da palavra expressa, olho no olho, ouvidos atentos e força para o imprevisível que sempre vem.

 

28 de fevereiro de 2011

Minha casa, metáfora de mim

“A casa da gente é uma metáfora da nossa vida, 
é a representação exata e fiel do nosso mundo interior”.  

Viajei ao ler essa frase no Non-Stop da Martha Medeiros, pra mim uma das melhores cronistas da atualidade.. 

Daí parei e mentalmente percorri a minha casa e me vi sorrindo ao constatar que, de fato, muito me assemelho a ela. Com meus tiques estéticos, percebo que cada coisa tem seu canto e que os mimos recebidos pelos amigos ao longo da vida, são os objetos de decoração mais recorrentes, junto aos livros que se espalham pela casa e os quadros e as frases que percorrem as paredes.

Fotografias dos queridos, muitas caixinhas, velas, revistas, brinquedos; a mesa de Juan para os trabalhos com a massinha de modelar. Toda a casa fala muito de mim e dele também, já que sua decoração prevalece tanto quanto a minha, num jogo híbrido de identidades expostas, prontas para serem apreendidas pelos olhares mais atentos que eventualmente nos visitam.

Ah, que delícia perceber isso! Então me lembro de todos que já passaram por lá, sobretudo aqueles conhecidos desde a infância, que mal botam os pés pra dentro e já na primeira vista exaltam um “nossa, é a sua cara!”. E parece mesmo. 
 
Tem aqueles cantinhos bagunçados, desorganizados à minha maneira; tem as garrafas de vinho vazias, que não consigo jogar fora; tem os quadros inacabados, reivindicando suas tintas; tem vasos retangulares de plantas, que servem para guardar as revistas; tem a árvore pintada na parede da sala, com seus galhos surreais florescendo cores; tem a lâmpada queimada do quartinho do fundo, esperando ser trocada e mais um milhão de pequenos detalhes, que num exercício contínuo de denotação, são a minha mais perfeita tradução.

Nossa casa, caverna acesa, é muito mais que um lugar onde a gente come, dorme ou vê televisão. Nela plantamos muito de nossa personalidade, mesmo sem se aperceber, mesmo sem querer ou de mansinho... Pode até parecer rima boba só pra terminar o texto bonitinho, mas nossa casa está muito além de ser apenas nosso ninho.